Archive for December 2011

 
 

Pequena, mas funcional

Quando morei em São Paulo conheci muita gente que trabalhava lá mas que morava em outra cidade. A grande maioria morava em Campinas, mas também tive colegas de trabalho que moravam em Osasco e Jundiaí. Para os que moravam em Osasco, a rotina geralmente consistia em acordar por volta de 5 da manhã e pegar um dos ônibus de empresas particulares, conhecidos como fretados, para chegar em São Paulo 2 horas depois. Uma vez cheguei a ir a uma entrevista de emprego em Campinas, para o Instituto Eldorado, mas o prospecto de gastar 4 horas por dia dentro de um ônibus não me animou muito. Felizmente não faltaram empregos dentro de São Paulo.

Dentro de São Paulo, ir para o trabalho geralmente consistia de uma combinação de ônibus e trem. E eu tinha muita sorte de morar perto da Avenida Rebouças, onde praticamente todos os ônibus que passavam me deixavam na estação de trem Hebraica-Rebouças. Todo o trajeto somava entre 40 e 45 minutos, e a vida era boa. Mas só porque era permitido chegar ao trabalho às 10 horas da manhã e sair às 19 horas, evitando assim ônibus e trems cheios. Mas ainda assim em alguns dias, como dias de chuvas pesadas, os trems passavam à noite com intervalos maiores e superlotados. Por várias vezes optei em fazer a volta para casa à pé nessas situações, chegando em casa uma hora e vinte minutos depois, totalmente molhado. Mas ainda assim eu estava contente, pois morava em Pinheiros, e não na periferia da cidade, o que dobraria o tempo gasto todo dia no trânsito.

Quando mudei para cá acabei finalmente morando em uma cidade e trabalhando em outra. Mas isso é bastante comum aqui, ninguém que trabalha aqui mora em Wil. Ainda assim levo menos tempo do que em São Paulo. Na verdade, hoje sou capaz de dizer como chego ao trabalho, com uma precisão de 1 minuto:

  • 08:38 – Saio de casa
  • 08:40 – Embarco no ônibus
  • 08:46 – Chego à estação de trem principal de St. Gallen
  • 08:48 – Meu trem parte de St. Gallen
  • 09:09 – O trem pára em Wil
  • 09:13 – Chego à pé ao escritório

Apesar de eu às vezes achar que “falta” muito do que havia em São Paulo aqui, uma coisa que definitivamente não faz falta é o tamanho enorme da cidade e o trânsito que o acompanha. A Suíça às vezes irrita por suas cidades serem tão pequenas, mas a forma como tudo funciona tão bem faz valer a pena.

Valfenda

Visitei esse blog ontem e, uau, já faz mesmo muito tempo. Mais de dois anos que não sinto vontade de escrever nada aqui. Na verdade não é falta de vontade, é preguiça mesmo. Como sempre temos que culpar algo que não nós mesmos, eu culpo o Twitter! Ele deixou mais fácil ser preguiçoso. Mas escrever em 140 caracteres não é nada como escrever no sentido tradicional da palavra. E escrever faz bem, intelectualmente e psicologicamente. Esse post marca então uma tentativa de voltar à escrever, da forma que a Escrita merece.

Nesses dois anos é óbvio que muita aconteceu (embora seja óbvio apenas se forem contadas as mundanices, nada garante que em dois anos vai acontecer mais do que acordar -trabalhar – dormir). Um dos acontecimentos mais notáveis nesse período foi a mudança para a Suíça. Eu e a Laurentina inicialmente ficamos em Wil, no cantão de São Galo, mas depois mudamos para a capital do mesmo cantão. É uma cidade pequena para os padrões brasileiros, com menos de 100 mil habitantes, mas estamos a apenas 40 minutos de trem de Zurique ou uma hora da Alemanha. A cidade e seus arredores são extraordinariamente bonitos, e vários prédios de sua Altstadt (“cidade velha”, núcleo de várias cidades suíças e alemãs formado por prédios, praças, fontes, torres e muros medievais) foram tombados como patrimônio histórico pela UNESCO, incluindo a impressionante catedral.

Há muito o que falar sobre a nossa mudança para cá, mas para limitar o escopo desse texto de forma que a preguiça não me deixe não terminá-lo, vou contar sobre mais uma mundanice da vida. Desde pequeno eu sou um ávido leitor, de forma que a pergunta “o que você está lendo agora?” sempre teve uma resposta. E temas recorrentes nessas leituras, que me atraem, são a ficção histórica e a fantasia medieval. As estórias contadas nesses livros geralmente passam-se na Europa ou locais baseados na Europa, onde lê-se sobre florestas, nevoeiros, colinas, ravinas, vales, neve, estações, montanhas. Bem, meu estado natal é o Ceará, um estado basicamente plano onde não há estações climáticas (embora no final do ano fique ainda mais quente). Quando mudei para São Paulo, tive mais contato com differentes tipos de terreno, vegetação e clima. Quando visitei a Serra Gaúcha senti frio de verdade. Mas só quando cheguei aqui pude finalmente compreender tudo o que foi lido durante esses anos todos e ficava no reino da imaginação, como se os livros estivessem descrevendo Marte.

Quando pego o trem diariamente para ir para o trabalho em Wil, passo por uma ponte sobre uma ravina profunda. Lá embaixo, a dezenas de metros, há algumas construções e um moinho espremidos entre um riacho e uma parede de pedra. Eu chamo o lugar de Valfenda.